Relatos de uma visita intercessória

Não é de hoje que a Igreja tem orado pelas Nações. Em 2014 a IF continuou percorrendo muitos países em oração e intercessão. Dentre tantos, há dois em especial que Gabriel Ferrari, professor universitário de física, foi enviado e participou como palestrantes e congressista de uma conferência  – o que lhe abriu as portas para ir ao Paquistão e também ir a outros países na região. Abaixo ele relata a sua experiência de oração nestas nações tão extremistas.

Paquistão

De 1858 a 1947 houve uma colônia chamada Índia Britânica, que compreendia o território atualmente formado por Índia, Paquistão e Bangladesh. No entanto, ainda antes de 1947 esta colônia se dividiu informalmente em duas sub-colônias: Paquistão (formada por muçulmanos) e Índia (formada por hindus e sikhs). A partir da independência da Índia Britânica, oficial e automaticamente foram criados dois estados: Paquistão, já dividido em Paquistão Ocidental (atual República Islâmica do Paquistão) e o Paquistão Oriental (que, em 1971, se separaria de seu “irmão ocidental” dando origem a um novo país, Bangladesh), e a Índia. Tal divisão, baseada na religião, foi sucedida por massacres históricos que ecoam até os dias de hoje. Aproximadamente quinze milhões de pessoas se movimentaram no total, partindo os muçulmanos da Índia em direção ao Paquistão e os hindus/sikhs do Paquistão para a Índia. Estima-se que tenham morrido até um milhão de pessoas nesta travessia, além de dezenas de milhares de mulhares estupradas ou sequestradas.

Na última década, o Talibã (organização de origem afegã) oprimiu o Paquistão durante anos através do terrorismo em especial na região noroeste, província de Khyber Pakhtunkhwa onde inclusive, após sucessivos ataques a escolas, a jovem Malala (prêmio Nobel da paz 2014 dividido justamente com um indiano, Kailash Satyarthi) foi baleada. Há dois dias atrás, um suposto líder do estado islâmico, Yusaf al-Salafi, foi capturado em Lahore, leste do país. O Paquistão é marcado por sangue desde sua fundação. Nunca houve paz na nação. Foi um dos cenários da guerra fria e, até hoje, de diversos atos terroristas. O país foi criado sob o espírito de ira e rebeldia, abrigando um povo hospitaleiro, porém desconfiado; esperançoso, porém ferido de alma.

Nas ruas do Paquistão

A maioria dos paquistaneses é, em essência, pacífica. Embora suas escrituras sutil e indiretamente deem margens a barbaridades e grupos mal-intencionados façam uso disto como arma de poder, não é ira que se vê no olhar do paquistanês, e sim um misto de inocência com crise de identidade. Falam de um “Messias” que não morreu por eles, e de um “Deus” parecido com o mencionado pelo apóstolo Paulo em Atenas:

Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio (Atos 17:23).

Em meados do ano de 2013 soube que estava agendada uma conferência de física em Islamabad, capital do Paquistão. Desde então passei a me preparar e orar, pois havia muitas etapas a serem cumpridas até que pudesse pisar nesta nação. Em especial, precisaria ter minha inscrição aprovada e o visto concedido e, principalmente, as portas da nação abertas do ponto de vista espiritual, pois seria o momento em que poderia interceder por aquele povo em seu próprio território. Deus, em Sua fidelidade, providenciou tudo o quanto necessário e, quando percebi, estava embarcando.

Se eu pudesse resumir a missão no Paquistão com um versículo, escolheria o que aparece acima. era como se eu estivesse profetizando sobre o próprio “Deus desconhecido” pois, apesar de ser uma nação marcada pelo islamismo e a religião ser literalmente o centro de tudo, é forte a impressão de que se adora aquilo que não se conhece. Digo isto pois meus dias foram rodeados por muçulmanos, era com eles que almoçava, jantava, falava sobre física e até religião. Aliás, Em uma conversa com o recepcionista do hotel, este perguntou-me se eu era cristão. Disse que sim, embora sem a menor ideia do que poderia vir a seguir. Após certo constrangimento, em especial quando o rapaz falava sobre as diferentes interpretações de Abraão, Jacó, Isaque, Ismael, Jesus e Maomé, o assunto naturalmente se dissipou. O fato é que não via paixão, mas religiosidade, como “vez ou outra” percebemos entre nós.

Passei cerca de duas semanas em Islamabad, tendo permanecido a maior parte do tempo no campus da Quaid-i-Azam University, mais especificamente no National Centre for Physics (por questões de segurança, as poucas vezes em que saímos do campus foram sob escolta armada e guarda-costas). A exemplar hospitalidade do paquistanês facilitou a adaptação nos primeiros momentos. Quando tudo se acalmou, pude ter um bom tempo  de adoração e intercessão em meu quarto, quando pude então perceber um pouco do anseio daquele povo. Orando por eles, compreendi que os seguintes versos da seguinte canção resumiam a atuação de Deus no Paquistão:

 

 O Espírito de Deus está aqui


Operando em nossos corações


Trazendo sua vida e poder


Ministrando sua graça e amor

Os feridos de alma são curados

Os cativos e oprimidos livres são

Os enfermos e doentes são sarados


Pois o Espírito de Deus está aqui

 

Afeganistão

Diferentemente do Paquistão, cuja antiga união com a Índia (famosa pelo pacifismo de sua independência da coroa britânica), apesar das marcas de guerra, lhe conferiu certo aspecto de paz, desde a antiguidade a guerra é constante na região onde hoje fica o Afeganistão. O local já era ocupado no século VI a.C. pela civilização bactriana e, depois disso, o território foi atacado por sucessivos invasores. O território também foi palco da guerra fria e, principalmente, continha o centro das operações da rede terrorista Al Qaeda.

Desde os atentados de 11/09 e a ascensão das discussões sobre terrorismo, cogitava um dia visitar uma nação hostil. Não sei bem o porquê, mas zonas de conflito e regiões famosas por suas tramas complexas sempre me chamaram a atenção. Quando soube da conferência mencionada acima, percebi que isto poderia estar perto não exatamente pelo Paquistão, mas pelo Afeganistão. Já havia escutado que aquela nação era mais perigosa do que esta e, antes de embarcar, mesmo tendo lido sobre ambas, ainda considerava que havia mais semelhanças do que diferenças. Todavia, ficaria claro que eu estava errado, e que há mais perigo nos ares afegãos do que nos paquistaneses. E, como a vida é feita de escolhas, a junção entre a corrupção do homem e a atuação do mal faz com que o Afeganistão seja, infelizmente, berço de perigosos terroristas.

Nas ruas do Afeganistão

A ida a Cabul (15/11/14) ocorreu após a primeira noite em Islamabad. Como vimos, havia alta restrição quanto às saídas do campus em Islamabad e, por isso, ir ao Afeganistão não foi algo de imediato. Estamos acostumados a, simplesmente, tomar um carro ou ônibus para ir a qualquer lugar. A menos das crianças e a relação com seus pais, não precisamos pedir permissão para ir à padaria ou ao shopping. Em Islamabad, contudo, não podíamos sequer pisar na rua fora dos portões. Assim que percebi o confinamento, de passagem previamente comprada no Brasil comuniquei à autoridade da conferência sobre a viagem do dia seguinte, ao que me respondeu que dificilmente eu iria. Passei a discretamente interceder em sua sala, enquanto o gentil professor ligava para a segurança do evento a fim de resolver a situação. Milagre concedido, em minutos a viagem estava autorizada. Para quem não podia ir ao centro da cidade, ir a Cabul estava de bom tamanho.

Na manhã seguinte, chegando ao hotel no Afeganistão logo perguntei sobre a possibilidade de conhecer a cidade antiga. Perguntaram-me se eu precisava de segurança, respondi que não. Todavia, disseram-me que esta era recomendada para a região que desejava visitar. Pouco tempo se passou e estávamos no carro eu, motorista, guia e guarda-costas. Mesmo de dentro do carro eram notórias as diferenças com Islamabad. Ao invés de inocência, medo; da crise de identidade, dura cerviz. Não há como explicar a maneira com que se percebe isto, mas é como se a atmosfera da nação e a névoa de poeira falassem por si só; além dos olhares, claro. O guia, assim como viria a presenciar no Paquistão, por vezes usava frases para me fazer entender que o afegão é um bom indivíduo. Hoje, passado um tempo da viagem, compreendo que ele não estava errado nem em sua intenção, nem em suas palavras. No hotel, no comércio, no restaurante e no aeroporto fui testemunha de que

(…) a nossa luta não é contra pessoas, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais  (Efésios 6:12).

Não se trata do povo afegão, não se trata do terrorismo, nem de Osama Bin Laden, Al Qaeda, Talibã, ISIS, homens-bomba, e etc. Trata-se dos dominadores deste mundo de trevas. As trevas em Cabul, de tão intensas, são praticamente visíveis no natural. A cidade antiga, onde temos contato com a verdadeira essência da capital, é permeada por uma densa poeira em toda a sua extensão. Por isso, jamais poderei dizer que o afegão é devastador, generalizando um povo que precisa do nosso amor. Embora Deus seja amor e juízo, parece-me que nós, como igreja, temos agido apenas com nossa justiça própria diante do povo muçulmano. Nossos inimigos não são os muçulmanos, nem os terroristas. Eles não conhecem nem mesmo quem adoram, quanto mais quem combatem! Estão todos, os de bem e os de mal, enredados por divagações e enganos de outrora que atualmente tem culminado em destruição. Mas, e o amor? Jesus morreu por eles, porém nós os julgamos como se fôssemos pessoas melhores. Sim,

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; (Mateus 5:6). No entanto, também, Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; (Mateus 5:7).

Entendo que devemos exercer também de amor e misericórdia com os muçulmanos. O Deus que servimos prega o pagamento do mal com o bem, a espada na intercessão, não na língua. É fácil amarmos um ímpio de cultura semelhante à nossa e cujas crenças não representam uma afronta visível a Jesus. Entretanto, como embaixadores do Reino de Deus na Terra, talvez estejamos pecando na maledicência proferida ao Islã. Quem é mais carnal? Quem me persegue ou eu, que o amaldiçoo? Eles não sabem o que fazem e, agora, para evitar polemização, não falo especificamente sobre os terroristas, mas sobre a maioria pacífica do Islã. Reconheço que há sim espíritos territoriais de divisão, de ufanismo e de ira, mas o homem que mais matou na história era austríaco.

***

Bem, a experiência prática de intercessão ocorreu em uma praça próxima do hotel, após a visita à cidade antiga. Diferentemente do Paquistão, foi um tempo muito difícil e de perseguição. Embora crendo que o Senhor era comigo, não percebia Sua presença, o que me angustiou. Saí da praça, dei uma volta na rua e retornei. Continuando a orar, percebi a indisposição de um senhor com a minha presença. O dia caía, a praça esvaziava. O senhor deixou as proximidades e, quando me dirigia ao hotel, ainda na praça cruzei com ele e um colega, que me abordou em dari, língua oficial do Afeganistão. Pelos gestos e entonação, compreendi que queria saber o que eu estava fazendo ali. Neste momento percebi que estava em perigo, precisava sair de tal situação. Desconversei e me apresentei a alguns rapazes que estavam jogando futebol, onde pude tomar um tempo e, então, voltar ao hotel. Nisto tudo foi evidente o cuidado de Deus, Sua mão me livrou.

É muito bom poder adorar a Deus em terras como estas, e servi-lo em regiões de hostilidade. Ele quer que sejamos vozes clamando no deserto. Algo que aprendi em todo este tempo foi que somos chamados à dependência total do Senhor e Sua paz. Não somos mais nós que vivemos, não é mais por nós que acordamos ou vamos dormir. Mas por Ele nos movemos e existimos, e isto é muito real, precisa ser vivido intensamente em todo segundo, todo lugar. Vivamos realidade palpável do “já não mais vivo, mas Cristo vive em mim”. Isto é muito forte! Somos agulhas no palheiro, carros na contramão deste século. Não temos parte com o mundo, o céu é nossa casa.

Que Paquistão e Afeganistão sejam berço de apaixonados por Jesus, de homens e mulheres que morrem voluntariamente, mas agora para si, e vivam exclusivamente para o Deus vivo.

Ao Deus do meu amor e a cada oração dos irmãos, todo o carinho e toda a gratidão!

_Gabriel Ferrari. Professor, levita e colaborador do Portal IF Online.

Igreja de Florianópolis – Proclamando a Verdade