Professor da UFSC comenta a Ciência e o descobrimento da “partícula de Deus”

Desde Gênesis 2.19 cabe à humanidade classificar o mundo ao seu redor. Deus, de maneira propositadamente misteriosa e enigmática, criou a natureza e proporcionou à excelência de Sua criação, o homem, a capacidade de desvendá-la:

Depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Gênesis 2:19

Ainda antes disso, tudo o que se tinha de nosso planeta era algo amorfo e totalmente diferente daquilo que hoje conhecemos: sem mares, divisões continentais, separação entre dia e noite e etc.:

Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. Gênesis 1:2

Embora a vida ainda estivesse por vir, incontestavelmente havia matéria, pois pelo menos uma certeza temos: porções de água se confundiam com outras de terra:

Disse Deus: “Haja luz”, e houve luz.
Deus
viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.
Deus
chamou à luz dia, e às trevas chamou noite. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia.
Depois
disse Deus: “Haja entre as águas um firmamento que separe águas de águas”.
Então
Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam embaixo do firmamento das que estavam por cima. E assim foi.
Ao
firmamento Deus chamou céu. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o segundo dia.
E
disse Deus: “Ajuntem-se num lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça a parte seca”. E assim foi.
À
parte seca Deus chamou terra, e chamou mares ao conjunto das águas. E Deus viu que ficou bom.
Gênesis
1:3-10

A própria Bíblia nos indica que oceanos e continentes formaram-se antes ainda dos famosos sete dias da criação, sendo que nestes dias o que houve foram modificações na estrutura daquilo que já existia. Por outro lado, a continuação do capítulo mostra que apenas os demais astros, além de vegetais, animais e todas as outras formas da natureza foram criadas segundo o Verbo. Como, então, teria sido gerada a água cujo conjunto mais tarde seria separado em oceanos? E de onde teria vindo a terra hoje conhecida por continentes? Teriam sido também frutos do Verbo ou o Maestro do Universo teria empenhado outra “técnica” de criação? João afirma que tudo teria sido criado através do Verbo, mas pode ser que este tudo represente apenas a criação a partir de Gn 1.2. Isto será sempre uma incógnita. Contudo, quem iria pensar que morder uma fruta faria com que a humanidade buscasse essa resposta?

E o Senhor Deus ordenou ao homem: “Coma livremente de qualquer árvore do jardim,
mas
não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá”.
Gênesis
2:16-17

Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão!
Deus
sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”.
Quando
a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também.
Os
olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se.
Gênesis
3:4-7

Assim nasceu o que hoje chamamos de ciência, que nada é além de conhecimento, um discernimento daquilo que é e o que não é. Caso o homem tivesse permanecido em Deus, continuaria eternamente como Sua imagem e semelhança e, sem restrições causadas pelo pecado ou carnalidade, teria livre acesso aos pensamentos de Deus e poderia compreender qualquer coisa a qualquer momento. A desobediência fez com que o homem perdesse esta “sobrenaturalidade natural”, passando a buscar com muito afinco saberes e habilidades que um dia lhe foram inerentes. Por exemplo: o elétron, um dos integrantes do átomo e o responsável pelas correntes elétricas (daí o nome), foi proposto e descoberto em 1897 por J. J. Thomson; estima-se que Adão e Eva teriam existido há 6000 anos atrás, ou seja, levou cerca de 5500 anos para que o homem finalmente se desse conta da existência de uma das partículas mais simples do Universo. Não fosse a queda, Deus poderia ter-nos ensinado isto em segundos.

Isaac Newton e Johannes Kepler (século XVII), alguns dos pioneiros da física ocidental, encaravam a ciência como uma maneira de estudarem a mente de Deus, inclusive por acreditarem que o mundo teria sido formado por Ele. Não havia até então contradição entre suas pesquisas e sua fé. Newton, inclusive, passou mais tempo com a Biblia, tentando datá-la, do que fazendo física. A motivação de estudar o funcionamento do mundo estava em Deus, como se tudo se traduzisse em um retorno a Ele. Contudo, tendo Satanás encontrado legalidade no meio científico, tratou de distorcer as atividades até que hoje torna-se praticamente impossível conciliarmos fé e ciência.

Talvez atualmente o homem efetue este “retorno” à mente de Deus sem que o saiba, pois há anos tem sido motivo de muitos debates e bilhões investidos o entendimento da composição da matéria. Entre os anos de 1970 e 1973, elaborou-se o chamado Modelo Padrão, que reúne todas as forças e partículas fundamentais da natureza. O modelo prevê o Universo como formado pela combinação de 28 partículas elementares (não compostas por outras partículas, formam a estrutura de composição e força mais interna e indivisível de átomos e moléculas), divididas em dois grupos bem distintos: férmions e bósons. É como se os bósons, ao contrário de férmions, preferissem formar conjuntos entre si em que todas as partículas estão com iguais energias e demais propriedades físicas. Nossos tão conhecidos elétron e próton, por exemplo, são férmions. Fótons, as partículas que compõem a luz, são bósons. Todas essas 28 partículas foram teoricamente propostas e a comprovação experimental do modelo “finalizou-se” em 1973, com (quase) todas as partículas detectadas. Este “quase” é devido a uma ideia que surgiu na década de 60, quando seis físicos (liderados pelo escocês Peter Higgs) propuseram, grosso modo, que o Universo deveria ser permeado por uma espécie de líquido viscoso, cuja função seria a de dificultar o movimento das partículas. Aquelas que encontrassem menos dificuldade em ultrapassá-lo, adquiririam menor massa, e assim por diante. Este líquido seria formado por partículas idênticas (pertencentes à classe de bósons), cuja não-detecção em laboratório deixara o Modelo Padrão incompleto até o presente ano. O cientista Leon Letterman procurou esta partícula por 20 anos – não achando, escreveu o livro “the Goddamn particle”, a particula amaldiçoada por Deus. Para fins de divulgação, sugeriu-se que alterasse o título para “the God particle”, a partícula Deus que, posteriormente, traduziu-se como “a partícula de Deus” – embora seu nome  aceito cientificamente, bóson de Higgs, carregue a identidade de seu maior idealizador.

A situação embaraçosa de o Modelo Padrão não ter sido até então capaz de explicar a origem da massa das demais partículas, afinal o bóson de Higgs não era algo concreto, demandou grande avanço tecnológico para tal detecção. Atualmente, aceleradores de partículas fazem com que átomos colidam a altas velocidades, o que possibilita a detecção de uma matéria não vista em condições normais. Assim foram descobertas as partículas do Modelo Padrão, e o mesmo tem-se empregado para o bóson de Higgs. Construiu-se o maior acelerador de partículas já conhecido, o LHC (Large Hadron Collider, ou Grande Colisor de Hádrons – partículas de elevada massa e complexa estrutura), um anel de 4,3 Km de raio (27 Km de circunferência) construido a 100m abaixo da terra – um dos principais experimentos é a busca por esta partícula. No último dia 04 de julho, cientistas deste laboratório detectaram uma partícula fortemente candidata a satisfazer a teoria do bóson de Higgs. Ainda que preliminar, o resultado é praticamente aceito dentre a comunidade científica dado o rigor empregado nas observações e a significativa conformidade teoria-experimento.

Figura: ilustração da partícula de Deus.
Fonte: symmetrymagazine.org 

Questões como essa, do tipo “de onde vem isso tudo com que convivemos?”, tem sido um grande alvo da chamada física de altas energias, cuja raiz está na descoberta da divisibilidade dos átomos, dos quais hoje se sabe que são compostos de um núcleo de prótons e nêutrons envolto por uma nuvem eletrônica. Ainda estes prótons e nêutrons hoje são tidos como divisíveis em quarks, estes sim elementares. Não obstante, ainda é possível que se divida mais a matéria caso, por exemplo, tenhamos uma máquina digamos 10000 vezes mais potente. Parafraseando o físico Marcelo Gleiser, descobrir a composição mais elementar da matéria é como desvendar a estrutura de uma laranja sem que a cortemos: ou atiramos contra ela uma pedra, ou a arremessamos contra uma parede; quanto mais força/energia empenharmos, mais constituintes encontraremos (sugo, bagaço, semente…). Em ciência nada é afirmado com certeza absoluta, não há verdades finais. Conhecemos o que podemos medir. Quanto maior a energia necessária, mais tecnologia deve ser desenvolvida, e a história de nossa compreensão do Universo está ligada a isso. Todo caso, foi esta busca pela composição do átomo que levou o homem à criação do primeiro sevidor de internet, a origem do “www”; na verdade, toda cultura digital moderna (computadores, celulares, uso do raio laser, GPS) veio de tentativas de se entender como funciona o átomo.

 Vimos, portanto, a origem do “polêmico” nome “partícula de Deus”, que do ponto de vista da ciência atual nada teria a ver com o próprio Deus. É apenas uma partícula que forma um meio determinante para a massa das demais, que preenche uma imensa lacuna na nossa compreensão do Universo. Agora… se antes do primeiro dia de Gn 1 já havia matéria (água e terra), já havia moléculas e átomos, logo prótons, nêutrons e, consequentemente, quarks. Estes, como já vimos, são fundamentais, tendo suas massas originadas nos bósons de Higgs. Não teria como, depois de Gn 1.2, a Bíblia tê-lo mencionado, o que nos permite conjecturar se não haveria espaço para o bóson de Higgs no “modelo da criação” no próprio Gn 1.1:

No princípio criou Deus os céus e a terra. Gênesis 1:1

O que conhecemos é apenas sombra do que está por vir, e a ciência deve ser vista como antigamente, um instrumento de retorno à mente de Deus, uma vez que através do pecado isto se perdeu em Adão, o primeiro homem que deu nome à criação de Deus e com ela interagiu. Aliada à revelação do Espírito Santo, a ciência tem alto potencial de preencher as lacunas que propositadamente são deixadas por Deus quando se comunica com Seu povo.

 

Gabriel Ferrari
Mestre em Física, professor de Física nos cursos de Engenharia da UFSC e músico da Igreja de Florianópolis