O ouro como elemento de adoração

O povo de Deus sempre teve uma missão. Ainda antes do surgimento de Israel, Noé foi comissionado a construir a arca e a Abrão coube renunciar sua vida para peregrinar sob orientação do Espírito de Deus até a terra que lhe seria indicada. Mais tarde, quando os israelitas já estavam bem estabelecidos social e politicamente, Davi foi incumbido de fortalecer Israel como nação diante de seus inimigos. Hoje, mais do que uma missão, você tem algo que estes homens nunca tiveram: um sacerdócio. O que você tem feito? Para responder a esta pergunta, meditemos por um instante em uma famosa passagem do livro de Êxodo.

Passados três meses após a saída do Egito, o povo partiu de Refidim e acampou no deserto do Sinai. Da montanha Deus chamou Moisés, que subiu e dEle ouviu:

“Vós mesmos vistes o que eu fiz aos egípcios, e como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. Agora, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade peculiar entre todos os povos, porque toda a terra é minha. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes, uma nação santa.” Ex. 19.4-6 (Bíblia de Jerusalém, BJ).

Após isso, Deus ordenou que o povo se santificasse e lavasse suas vestes pois em dois dias Ele desceria aos olhos de todos. O dia chegou, e desde cedo tudo ocorreu de maneira muito semelhante ao que está escrito sobre a segunda vinda de Jesus: trovões, relâmpagos e clangor de trombetas. O povo se amedrontou: “Todo o povo, vendo os trovões e os relâmpagos, o som da trombeta e a montanha fumegante, teve medo e ficou longe. Disseram a Moisés: ‘Fala-nos tu, e nós ouviremos; não nos fale Deus, para que não morramos’.” Ex. 20. 18-19 (BJ).

Prosseguindo, observamos que de Êxodo 20.22 até 31.18, ou seja, durante onze capítulos deste livro, no alto do monte Sinai, Deus revela Sua Lei a Moisés, desse modo, Seus desígnios com relação a servos, furtos, obrigações civis, ao sábado, os próprios dez mandamentos, à construção do tabernáculo e seus utensílios, etc. Mas vale ressaltar que o primeiro ponto que Deus colocou a Moisés após ter se manifestado em meio a trovões e relâmpagos foi: “Assim dirás aos israelitas: Vistes como vos falei do céu. Não fareis deuses de prata ao lado de mim, nem fareis deuses de ouro para vós.” Ex. 20.22 (BJ).

O fato é que muito tempo se passou disso até a volta do profeta e o povo cansou de esperar, pedindo então que Aarão lhes fabricasse um ídolo que substituísse Iahweh. Este primeiro pecado do povo violou justamente a primeira direção de Deus, descrita acima. O sacerdote, inseguro diante de tamanha reivindicação, cedeu aos desejos do povo e encontrou uma estratégia para a confecção deste deus: “Tirai os brincos de ouro das orelhas de vossas mulheres, de vossos filhos e filhas e trazei-mos.” Então todo o povo tirou as orelhas os brincos e trouxeram a Aarão. Este recebeu o ouro das suas mãos, o fez fundir em um molde e fabricou com ele uma estátua de bezerro. Ex. 20.3, 4 (BJ).

O que temos até aqui, resumidamente: um povo rebelde que entregou o ouro de suas orelhas para que o sacerdote lhe fizesse um ídolo fundido. Lembre-se de que, antes disso, Israel havia fugido da presença de Deus, não tendo dado ouvidos a Ele. A promessa, caso tivessem ouvido, era de que se tornariam um reino de sacerdotes. E de fato isto nunca aconteceu em seu meio pois, ao longo da Bíblia, apenas “a menor parte da mais mínima minoria” dos israelitas se tornava sacerdote, tendo acesso ao Santo dos Santos. Não ouviram ao Senhor e por isso não foram feitos sacerdotes. A que deram seus ouvidos? Ao bezerro de ouro. O bezerro foi construído a partir dos brincos dos israelitas, do ouro de suas orelhas. O povo escolheu a obstinação da carne, a voracidade por aquilo que era terreno. De tão imediatistas, ao invés de darem ouvidos ao profeta que vinha com a Aliança do Senhor, a um ídolo entregaram sua devoção.

Israel sofreu as devidas consequências deste pecado grave, mas os propósitos de Deus deveriam continuar. Começa, portanto, a construção do tabernáculo, local de expiação de pecados, comunhão e adoração. Todas as divisões do tabernáculo foram devidamente prescritas por Deus, com seus devidos utensílios e materiais (madeiras, tecidos, metais) que deveriam ser empregados. Dentre tudo isso, inesperadamente algo contrasta com o vimos acima: a confecção do menorá (candelabro). Este utensílio possuía sete cálices e em cada um destes deveria arder continuamente uma chama de fogo, o que em nossos dias tipifica os sete espíritos de Deus e a própria manifestação de Sua glória. O menorá ficava no interior do Santo dos Santos, onde o sacerdote tinha seu tempo de intimidade com Deus e dEle ouvia as direções que o povo deveria tomar. Veja como foi sua confecção: “Ele fez a menorá de ouro puro, obra de forja; a base, a haste, os cálices, as argolas de folhas externas e as flores formavam uma só unidade.” Ex. 37.17 (Bíblia Judaica Completa, BJC).

Algumas versões trazem “ouro batido” ao invés de “obra de forja”, isto é: se por um lado o bezerro de ouro foi construído a partir de ouro fundido em um molde, por outro o menorá foi feito de ouro esculpido, martelado. E de onde você imagina que veio o ouro para a confecção do menorá?

Depois vieram todos aqueles aos quais movia o coração e todos aqueles cujo espírito os fazia sentirem-se generosos, e trouxeram a sua oferenda para Iahweh (…)
Vieram os homens junto com as mulheres. Todos os generosos de coração trouxeram fivelas, pingentes, anéis, braceletes, todos os objetos de ouro. Ex. 35.21-22 (BJ).

O ouro novamente veio do próprio povo, e aqui podemos explorar outra diferença entre a fabricação do bezerro e a do menorá: antes os israelitas haviam sido forçados a entregar seus brincos a Aarão; agora, voluntariamente e de generoso coração foi que eles contribuiram para o ouro do tabernáculo. Além disso, sabemos que eram os homens que tinham voz naquela época, portanto a reivindicação do bezero foi feita pelos pais de família. E quem cedeu os brincos? Suas mulheres, filhos e filhas. Todavia, para o ouro utilizado no tabernáculo vinham os homens junto com as mulheres e todas as peças do menorá formavam uma só unidade. Entenda que não se tratava de um objeto como um jogo de lego, feito de peças avulsas; o menorá era esculpido em uma única peça de ouro. Logo, o bezerro significava divisão; o menorá, unidade. E quanto ouro era necessário?

De um talento de ouro puro fez o candelabro e todos os seus utensílios. Ex. 37.24 (Almeida Corrigida e Revisada Fiel, ACF).

Um talento! Talento era uma medida de massa, equivalendo de trinta a trinta e cinco quilogramas. Mas certamente esta palavra é mais profunda do que uma referência a pesos e medidas, pois nos faz lembrarmos daquilo que temos recebido do Senhor. Na maior parte das vezes em que a Bíblia fala de talento, vemos algo relacionado às dádivas do céu, como uma porção especial que o Senhor confiou a cada um e que deveria servir para determinado propósito na terra. Lembre-se de que na famosa parábola, o servo que não multiplicou seu talento foi tido pelo seu senhor como mau e negligente (curiosidade: neste mesmo capítulo, Mt. 25, Jesus fala sobre as virgens néscias, parábola onde há fogo e azeite – dois elementos que, assim como o menorá feito a partir de um talento de ouro, também estão presentes no altar dos Santos dos Santos).

E o que toda esta tipologia tem a ver com nossas vidas? Tudo! Seremos recompensados no céu de acordo com o que fizermos na terra. Todos nós recebemos porções especiais do Senhor: aptidões, dons, sonhos, vocações, ideias, etc. Ou um simples ardor no coração.
Tudo isto são talentos. A pergunta é: seu coração arde como a chama de um menorá? Ou você está ocupado demais entregando seus tesouros a ídolos que satisfaçam às cobiças e concupiscências de sua carne? Israel ofereceu o ouro de suas orelhas a um deus estranho, recusou-se a dar seus ouvidos ao Senhor e por isso impediu que a promessa de serem reino de sacerdotes se cumprisse em seu meio.

Sim! Veja acima: qual foi o único adorno que não entrou na lista de contribuições para o ouro do menorá? Os brincos! Foram-se braceletes, pingentes, anéis, tudo, menos os brincos. O povo escolheu ser tolhido de ouvir a voz de Deus, e por séculos e séculos isto coube apenas aos sacerdotes (Aarão apenas fundiu e modelou o bezerro, mas não cedeu o ouro que possuía). No entanto, as promessas do Senhor nunca falham e não foi por um pecado do povo obstinado que Sua nação escolhida não seria um reino de sacerdotes: Jesus comprou nosso sacerdócio a preço de sangue, e hoje essa promessa é viva e eterna para o Seu Israel, a Sua Igreja!
E, havendo tomado o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos. E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e língua, e povo, e nação; E para o nosso Deus nos fizeste reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra. Ap. 5.8-10 (ACF). Glória a Deus! Temos a revelação do menorá como sendo a tipologia dos sete espíritos de Deus, certo?

Olhe quem estava na Nova Jerusalém em meio à adoração ao Cordeiro: os quatro seres viventes! E por que eles adoravam? Por causa da revelação de que o sangue de Jesus nos havia comprado, fazendo de nós reis e sacerdotes. Observe a seriedade disso! O sacerdócio perdido aos pés do monte Sinai foi readquirido no alto do monte Calvário, em Jerusalém. Sabe o que aconteceu? O véu do templo de Jerusalém (espécie de novo tabernáculo) foi rasgado após o último suspiro e grande brado de Jesus. E o que este véu “escondia”? O próprio Santo dos Santos! Ou seja, o acesso direto ao Senhor foi liberado! Hoje todos nós podemos nos achegar ao Senhor como sacerdotes e dele receber autoridade. De que isto dependerá? De como utilizaremos os tesouros que o Senhor nos deu. E, como sempre, há apenas dois caminhos: o de morte (largo) e o de vida (estreito).

Quem segue o caminho de morte utiliza os tesouros celestiais para seu próprio benefício, saciando seus desejos medíocres e criando bezerros de ouro fundidos e retalhados. Esta pessoa, a exemplo do padeiro do sonho de José, não trabalha, mas deixa todo o serviço para o sacerdote (como o povo fez com Aarão). Por outro lado, quem segue o rumo de vida transforma seus tesouros em um talento de ouro puro e, como o copeiro, trabalha (lembre-se de que o menorá era feito de obra de forja, onde o bloco de ouro era martelado e esculpido) para que o Reino se expanda e o Rei se alegre. Esta pessoa é o servo bom e fiel, que multiplica o seu talento e entra na presença do Senhor. Transforma o tesouro celestial em mais tesouro celestial, pois trabalha para multiplicar riquezas eternas na Nova Jerusalém, e não ajuntar moedas corruptíveis na Babilônia. Quem escolhe o caminho de vida, como um sacerdote constrói um menorá na terra (de um talento de ouro) e como um rei ganha uma coroa de glória no céu (de um talento de ouro): E Davi tirou a coroa da cabeça do rei deles, e achou nela o peso de um talento de ouro, e havia nela pedras preciosas; e foi posta sobre a cabeça de Davi; e levou da cidade mui grande despojo. 1 Cr. 20.2 (ACF).

Mesmo sendo dono do ouro e da prata, o Senhor contou com a oferta voluntária do povo para a confecção do tabernáculo pois Ele queria que o povo tivesse parte na Sua obra. Da mesma forma, hoje Ele quer trabalhar conosco e não apenas que trabalhemos para Ele. Como um filho que diz “trabalho com o meu pai”, ao invés de “para o meu pai”, nossa postura deve ser de colaboradores com os propósitos de Deus. Cada um de nós tem um sacerdócio, um lugar de autoridade no Reino, e devemos descobrir que lugar é esse. Tendo descoberto, continuamente temos que cuidar para que não corrompamos os tesouros que o Senhor nos confere. Com estes tesouros, menorás devem ser construídos, ou seja, a adoração e o serviço no Reino devem ser multiplicados, ao invés de bezerros de ouro malditos que só alimentam nossa carne.

Assim como a linha que divide a postura do padeiro e a do copeiro é muito tênue, é muito fácil confundirmos a construção de um menorá com a de um bezerro. Lembre-se, inclusive, de que um dos seres viventes (um dos braços do menorá) também é um bezerro (sinônimo de novilho). Perceba mais um contraste: após a construção do bezerro, este foi visto por todos; o menorá, por outro lado, ficava escondido no Santo dos Santos. Transformar tesouros celestiais em um bezerro significa auto-promoção e orgulho ministerial. O indivíduo que assim procede toma a glória de Deus para si e não tem compromisso com a Noiva. Mas transformar tesouros celestiais em um menorá signifca gerar no secreto, profundo e escondido as porções que a Noiva receberá, e isto revela um coração humilde. O indivíduo que assim procede entende que é tudo dEle, por Ele e para Ele e não tem necessidade de aparecer.

Aarão era o responsável pelo povo enquanto Moisés estava no monte Sinai e se envergonhou quando foi chamada sua atenção após o pecado original do povo. Adão era o responsável por Eva no Éden e se envergonhou quando Deus o procurou após o pecado original da humanidade. O servo mau e negligente era responsável pelo talento e se envergonhou quando teve que prestar contas a seu senhor. Nós, em nossos sacerdócios, somos responsáveis pela Noiva! Portanto, que naquele dia não tenhamos motivos para nos envergonhar quando estivermos diante do Rei! Que não seja encontrado sangue em nossas mãos! Que esteja tudo consumado!

-  Gabriel Ferrari 

 

Igreja de Florianópolis – Proclamando a Verdade