Uma Dieta

Mel, coalhada, frutas e o sucesso de uma dieta rica em maturidade 

             Obviamente nunca antes houve, tanto secular quanto teologicamente, tão imediato acesso à informação. Tecnologias são sumariamente substituídas periodicamente para atenderem à taxa exponencial de mudanças seja no comportamento da sociedade ou na maneira com que esta absorve notícias ou fatos. Em um cenário onde a erudição da tradicional consulta a bíblias de estudo por vezes é substituída pela praticidade das buscas na web, a igreja tem experimentado, simultaneamente, acúmulo de conhecimento e atrofia do discernimento. Aqui, pretendemos discorrer acerca do modo bíblico de evolução de pensamento e, através de um confronto contextualizado, discutir de que maneira o descumprimento disto tem conduzido muitos a um futuro fadado à imaturidade.

 

  1. A si mesmo se esvaziou e a si mesmo se fez um de nós

 

No princípio, aquele que é a Palavra já existia. A Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. Ele existia no princípio com Deus. Por meio dele Deus criou todas as coisas, e sem ele nada foi criado  (Jo 1.1-3).

 

Assim, a Palavra se tornou ser humano, carne e osso, e habitou entre nós. (Jo 1.14)

 

Uma boa maneira de iniciarmos a análise proposta é investigarmos o princípio de absolutamente todas as coisas. Neste estágio do Universo, tudo o que existia era a Palavra, que era Deus, ou Deus, que era a Palavra; sem distinções. Cientificamente, a Teologia poderia concordar com a Física caso se pudesse afirmar que tratava-se de uma energia divina. Em seguida, por meio da Palavra tudo o que conhecemos foi criado. Tudo, inclusive a materialização da Palavra. Note, portanto, que a própria Palavra se esvaziou do que era necessário se esvaziar e, então, a si mesmo se materializou:

 

Em vez disso, esvaziou a si mesmo; assumiu a posição de escravo e nasceu como ser humano  (Fp 3.7)

 

Ninguém poderia fazer isso pela Palavra, apenas ela em si mesma. Isto faz de Jesus intermediador não apenas entre o Pai e a natureza, mas também de sua própria “criação” enquanto homem-Deus. Por meio dele tudo se fez, inclusive Ele mesmo. Quando Adão foi criado, recebeu o sopro de Deus tornando-se, desde então, imagem e semelhança da Trindade. Jesus, por outro lado, despiu-se de sua glória, de sua imagem e de sua semelhança consigo mesmo para habitar aqui; posteriormente, fez-se carne como qualquer um de nós. A Bíblia faz questão de reforçar sua humanidade, referindo-se a Ele como filho do carpinteiro. A glória da qual se despiu foi readquirida somente na cruz e estabelecida no terceiro dia, e não em seu período na Terra. Aliás, caso Jesus estivesse carregado com a glória celestial, ninguém conseguiria lhe dirigir o olhar. Isto mostra que tudo o que Ele fez e foi está ao nosso alcance, contanto que sigamos os passos de seu grande segredo: o temor, o deserto e o tempo de preparo até o início de seu ministério.

 

 

  1. A si mesmo se edificou

 

Uma vez que se tornou humano e esvaziado de toda a glória celestial, antes da idade da razão Jesus tinha a noção típica de qualquer outra criança de sua faixa etária, evidentemente sem se dar conta de seu DNA parcialmente divino. Ele submeteu-se a um processo semelhante ao da formatação de um computador, em que se mantém o hardware mas o software é zerado e todos os dados a partir dali são novidade. Ao atingir cerca de seis ou sete anos, o que o fez entender que era filho de Deus? Certamente, seus minuciosamente escolhidos pais. Pelo fato de Jesus não ter nascido pronto para ministrar e fazer cumprir a vontade de Deus, a educação em casa apresentou-lhe paulatinamente sua missão. Foi apresentado e consagrado no Templo, bem como ensinado no caminho em que deveria andar e nunca se desviou dele. Todos os anos a família cumpria diligentemente a Páscoa, inslusive na célebre ocasião em que o perdeu de vista enquanto, com seus doze anos, indagava os mestres da Lei no Templo.

Maria e José haviam incutido a semente do Senhor em Jesus e fizeram-no compreender quem de fato era e qual seria seu chamado. Além disso, ele precisou buscar direção e unção do Pai para que todos os respectivos desígnios fossem cumpridos.  A partir daí sua genética celestial foi evidenciada e decidiu assumir sobre si a paternidade de Deus. Podemos entender este fato como o posicionamento de crianças que nascem em lar cristão e não passam necessariamente por um processo de conversão, mas decidem manifestar o chamado de Deus e reconhecer a salvação. No entanto, dado o panorama peculiar, este posicionamento de Jesus lhe conferira definitivamente sua identidade divina.

Todavia, esta postura não o eximia da tentação e do pecado, pois até a cruz ele viveu, compreendamos nós ou não, como sendo totalmente Deus e totalmente homem. De fato, apenas quando ao menos aceitarmos esta totalidade humana deixaremos de justificar nossa iniquidade com o inescrupuloso “fato” de que “Jesus era Deus e por isso não pecou”. O que ele realmente nos mostra é que é possível vivermos o céu na Terra independentemente de nossa natureza pois, mesmo despido da glória celestial, foi capaz de readquirir este ambiente aqui. Provavelmente, as saudades da atmosfera que vivera fizeram com que Jesus trouxesse o céu para a a Terra, buscando o Pai e sendo um com Ele. Isto nos é completa e igualmente factível.

Diante disso, é sábio vivermos o famoso hiato entre a infância até a fase adulta de Jesus ao invés de questionarmos o porquê de não haver registros acerca deste período. De uma coisa sabemos: Jesus não era um super-heroi cujos dotes de magia e poderes fantásticos o levaram ao sucesso de santidade e propósito inexplicavelmente. A verdade é que tudo o que ele viveu naqueles anos está também ao nosso alcance. Assim como ele se portou no período de identificação e busca, nós também devemos crescer em estatura, graça e conhecimento para obtermos as porções do céu a serem manifestas na Terra. Jesus é, definitivamente, o referencial para tudo, por exemplo: a honra a seus pais possibilitou que recebesse deles no coração a ministração de que era filho de Deus, o Messias. Então, partiu para as Escrituras a fim de se aperfeiçoar, abrindo-se para o conhecimento do Senhor. Deste modo, pela fé, assumiu seu lugar. Durante as quase duas décadas das quais não se tem registro seu, esta auto-edificação proporcionou-lhe o entendimento de que estava cumprindo a Lei, que era Senhor do sábado, que veio para dar vida em abundância e etc. Ademais, recebeu dons e ministérios, a partir dos quais poderia então finalmente estar pronto para operar milagres, profetizar, ensinar e proclamar as boas novas. De fato, não se tratou de uma mera questão de abrir um pacote dentro do qual tudo estava organizado e concluído para ser utilizado; Jesus precisou dar um grande passo de fé para se assumir como o Messias. Na verdade, sabemos bem em que ponto de sua vida tudo tornou-se concluído (consumado).

Jesus deixou este exemplo conosco de modo a também nos separarmos e buscarmos o Senhor. Assim como o Pai esteve disponível a Jesus, está disponível a nós. Jesus ainda não abrigava o Espírito Santo quando começou a buscar a Deus, mas aos poucos seu espírito foi sendo assim forjado. Tudo lhe aconteceu pela fé, do mesmo modo que deve acontecer conosco. Se Jesus não esteve isento de nenhuma etapa, atribuição ou responsabilidade para ter vida com o Pai na Terra, talvez seja o momento de encararmos tudo o que Deus nos pede e não mais nos eximirmos de deveres considerando (por puro empirismo) que a mão de Deus não pesará sobre nós e que, além disso, tudo se cumprirá como deve ser por causa de Sua fidelidade. Agir assim é ser fatalista e nem Jesus pôde se dar ao luxo de deixar de se edificar.

 

 

  1. E quanto a nós mesmos?

 

Logo após a ressureição, os discípulos tiveram uma bela oportunidade de exercitar o discernimento que aprenderam com Jesus, uma vez que conhecimento definitivamente já não lhes faltava. No entanto, ante à necessidade de escolherem o substituto de Judas Iscariotes, lançaram sortes e, por fim, Matias foi o escolhido. Poderíamos pensar que procederam desta maneira pois o Espírito Santo ainda não havia descido mas, se assim fosse, como então os profetas do Antigo Testamento eram tão precisos? Como João Batista foi tão específico? Na verdade, lançaram sortes porquê não oraram ao Senhor, não o buscaram. Deus estava disposto a se comunicar com eles ainda assim como com Abraão, Davi, Eliseu; assim como Jesus ensinara.

A beleza do Espírito Santo não está somente na direção, mas mais ainda na possibilidade de um relacionamento contínuo com o Senhor. A promessa do Espírito Santo veio um pouco após os fatos acima, em um momento em que os discípulos estavam aflitos ao perceberem que a pessoa que mudara suas vidas e lhes trouxera o céu estava partindo em sua definitiva ascenção. E agora, como eles iriam se relacionar com o céu, com Jesus? Veio, portanto, a palavra de conforto, a promessa de que o céu estaria sempre ao seu alcance: “não sois desse mundo, como eu também não sou”. Eles sempre viram o Espírito Santo em Jesus, ainda que não o soubessem. Por isso que Jesus iniciou seu ministério em uma fase madura de sua vida. Caso tivesse aparecido antes, seria tido como alguém de Deus, um profeta. Entretanto, apareceu já cheio do Espírito Santo, proporcionando uma futura identificação dos discípulos com esta imagem e semelhança quando este viesse a lhes descer.

Os discípulos tinham, assim como temos hoje, a promessa de que sempre poderiam se relacionar com Cristo. Ainda assim, muitos eram indiferentes e não o concebiam como filho de Deus, e sim como filho do carpinteiro. Costumamos mencionar a falta de revelação dos judeus, porém agimos de modo semelhante quando o Senhor passa, manifesta-se e sequer o vemos. Rejeitamo-lo, muitas vezes sem discernir que determinada atuação foi providenciada por Ele. Nossa atitude é igual ou até mesmo pior, visto que hoje temos o Espírito Santo.

 

 

  1. O exemplo de Cristo como um incentivo à maturidade

 

Depois, o Senhor enviou esta mensagem ao rei Acaz: “Peça ao Senhor, seu Deus, um sinal de confirmação. Pode ser algo difícil, alto como os céus ou profundo como o lugar dos mortos. O rei Acaz, porém respondeu: “Não porei o Senhor à prova desse modo”. Então o profeta disse: “Ouçam bem, descendentes de Davi! Não basta esgotarem a paciência das pessoas? Agora também querem esgotar a paciência de meu Deus? Por isso, o Senhor mesmo lhes dará um sinal. Vejam! A virgem ficará grávida! Ela dará à luz um filho e o chamará de Emanuel  (Is 7.10-14).

 

A revelação do Messias começou em Deus. Jesus tinha acesso aos manuscritos, tanto que citara o profeta Isaías em algumas ocasiões. Os textos dos profetas que lemos hoje são os mesmos que Jesus lia enquanto se preparava para o ministério. Sugiro uma releitura da passagem acima considerando-a sob a ótica do Messias adolescente. No entanto, é a sequência do texto que desejamos trazer à tona:

 

Ele se alimentará de coalhada e mel até que saiba escolher o bem e rejeitar o mal  (Is 7.15).

 

Perceba Jesus buscando de Deus as direções, aprendendo através da comunhão. Ele era Deus e necessitava deste alimento, humilhou-se a ponto de se alimentar figurativamente de coalhada e mel até que soubesse discernir. Atualmente, empenhamos esforços para aplicar no reino nossa capacidade contemporânea de escolher os caminhos mais simples. Estamos tão bem treinados a buscar facilitações para todos os processos da vida que entendemos funcionar da mesma maneira o trato de Deus conosco. Há coisas que nunca mudam e que nunca se submeterão às adaptações tecnológicas: o homem precisa de mel e coalhada caso queira discernir o coração de Deus, escolhendo o bem e rejeitando o mal. O apóstolo Paulo também tratou a respeito disso com a igreja de Roma:

 

E agora, irmãos, peço-lhes que tomem cuidado com aqueles que causam divisões e perturbam a fé, ensinando coisas contrárias ao que vocês aprenderam. Fiquem longe deles. Esses indivíduos não servem a Cristo, nosso Senhor, mas apenas a seus próprios interesses, e enganam os inocentes com palavras suaves e bajulação. (…) Quero que sejam sábios quanto a fazer o bem e permaneçam inocentes de todo mal (Rm 16.17-19).

 

De nada adiantará a imensa quantidade de informação acessível a nós se não nos humilharmos e buscarmos discernimento, a exemplo do próprio Jesus. Muitas vezes tiramos algumas conclusões a respeito da vida com Deus por nos faltarem mel e coalhada, maturidade! Deus nos falou que comeríamos o melhor justamente da terra em que manam leite e mel, o alimento de Jesus até a maturidade. Sempre que necessitarmos, haverá leite e mel em abundância nas terras do Rei, pois Ele sabe o quanto nossa mente é limitada diante de sua infinitude. Poucos são aqueles aprovados a experimentar o alimento sólido:

 

Irmãos, quando estive com vocês, não pude lhes falar como a pessoas espirituais, mas como se pertencessem a este mundo ou fossem criancinhas em Cristo. Tive de alimentá-los com leite, e não com alimento sólido, pois não estavam aptos para recebê-lo. E ainda não estão, porque ainda são controlados por sua natureza humana. Tem ciúme uns dos outros, discutem e brigam entre si. Acaso isso não mostra que são controlados por sua natureza humana e que vivem como pessoas do mundo? (1 Co 3.1-4).

 

Basta acompanharmos os comentários em um post aleatório de qualquer página cristã em uma rede social para nos certificarmos que a situação da igreja em nada mudou. Portamo-nos como os coríntios, exibindo uma pura natureza humana. Note que este foi o motivo pelo qual Paulo precisou mantê-los bebendo leite. De fato, alimentam-se de mel e coalhada aqueles que ainda não estão vivendo no Espírito plenamente, assim como aconteceu com Jesus até o início de seu ministério, quando então esteve apto para discernir bem e mal. Igreja, não estamos aptos para discernir as situações mais simples de nosso interior, quanto mais de uma grande batalha que se aproxima! Para alguém se alimentar de leite e mel não é necessário esforço algum, o que sinaliza comodismo. Não há mérito nisso. Ademais, esta dieta não contém os nutrientes mais necessários de uma vida com Deus como benignidade, amor, domínio próprio, mansidão, fé, paz… enfim, o fruto do Espírito. Quem vive na imaturidade não manifesta o fruto do Espírito, não gera sementes, não produz fumaça. Estamos sendo cada vez mais distraídos da comunhão com Deus e despreparados para a batalha final, pois o mel e o leite nos atraem mais do que a árvore da vida. Sim, quem não é capaz de ingerir sólidos não pode se alimentar da árvore da vida. Para onde estamos caminhando? Será que estamos parados ou em retrocesso, apenas acreditando ser a correta a atual conduta?

 

  1. Conclusão

 

Imaturidade vem pelo fato de considerarmos que se estar conectado, atualizado e informado é tudo, enquanto nos esquecemos de buscar as entrelinhas da mensagem de Deus, que contém muito mais do que qualquer site de busca. Sites de busca não nos direcionarão ao profundo e escondido, apenas o Senhor. Imaturidade vem ao justificarmos nossos pecados e nossos erros, escondendo-nos atrás da mentira de que é impossível ser santo como Jesus, pois ele era Deus. Imaturidade é se recusar a pagar o preço de temer, haja vista que foi o temor um dos principais fatores que impedia Jesus de pecar. Temor, o princípio da sabedoria; distração, o princípio da imaturidade.

 

Gabriel Ferrari, professor e levita na IF.

 

Igreja de Florianópolis – Proclamando a Verdade